Sagrada Família
   
 

 


Profético sonho de criança

Dom Benedicto de Ulhoa Vieira

Um jornalista, que deixara a Igreja havia muito tempo porque “todas as certezas se tinham tornado questionáveis”, teve o privilégio de entrevistar, faz algum tempo, o Cardeal Ratzinger sobre muitos assuntos, como a fé, a Igreja, a teologia e sobre a sua infância e sua vida. Longa entrevista que, de tão longa, deu um livro com o título de O Sal da Terra. A leitura nos clareia os olhos para vermos o retrato de corpo inteiro e de alma do atual Pontífice Bento XVI. Estas minhas linhas são apenas um esboço, alguns traços, talvez o perfil do Papa.

Interrogado pelo entrevistador se não lhe parecera desrespeitoso ter sido tratado por um protestante, não de “Eminência”, mas de “Irmão José”, respondeu que lhe não parecera desrespeitoso pois “Irmão José’ é bela expressão, já que falamos do amor fraterno”. E sobre

sua intimidade com Deus, explica: “A relação com Deus é uma necessidade para mim. Pois como todos os dias precisamos respirar, assim como todos os dias precisamos de luz e de alimento, assim a relação com Deus pertence aos elementos que sustentam absolutamente a vida”.

Notável sua antevisão do ressurgimento da fé diante das correntes adversas da nossa época. Temos - diz - “de nos despedir das idéias existentes de uma Igreja de Massas (...) O Cristianismo voltará a estar sob o signo do grão de mostarda, em pequenos grupos, aparentemente sem importância, que são formas fortes da presença da fé”.

Explica como funciona e age a Congregação da Doutrina da Fé. Os estudos e as decisões não são pessoais de quem a ela preside como moderador: “Nunca ousaria impor à cristandade minhas próprias idéias teológicas”. O contato se faz por correspondência com os teólogos do mundo todo que são conselheiros; ouve-se também a Comissão Bíblica e a Teológica; a instância decisória é dos Cardeais que assessoram a Congregação. Nunca se decide algo enquanto os consultores não tiverem chegado a um acordo por um vasto consenso.

Bento XVI foi educado numa família que vivia na simplicidade, no trabalho, na alegria e no amor. A música teve forte importância no lar dos Ratzinger. Sua preferência era e é por Mozart que “me emociona profundamente - diz ele - por sua luminosidade e pela profundidade de sua música”. A religião era essencial componente da família: a oração em comum, também antes das refeições, o terço, a missa paroquial. Tinha ele particular interesse pela liturgia com o uso do missal (naquele tempo!), que recebera dos pais como presente.

Ainda pequeno, impressionado com a imponente púrpura do Cardeal Faulhaber que visitava a paróquia, disse que queria ser como ele: profético sonho de criança... Forjou-lhe o caráter o rigor da guerra em que serviu na defesa anti-aérea, caindo prisioneiro dos americanos. Com o fim da beligerância, pôde terminar a teologia, seu grande ideal, e ordenar-se sacerdote.

Como teólogo, seguiu mais Agostinho que Santo Tomás. Atuou no 2º Concílio Vaticano, como assessor teológico do Cardeal Frings que, com o apoio do Cardeal Liénart, levou os Padres Conciliares na primeira sessão, a rejeitar as listas adrede preparadas das comissões. Ratzinger, a respeito deste fato, classifica-o como “o primeiro golpe de espada no início do Concílio”. E proclama que a verdadeira herança do Vaticano 2º hoje para nós são os seus textos, que analisa e comenta com aura doutoral.

Reconhece que a Igreja hoje se tornou multifacetada, mas una no Credo e na ligação com Roma. Da Teologia da Libertação diz que deve “ser interpretada em sentido positivo. A idéia fundamental (dela) é que o cristianismo tem de ter efeito na existência terrena do homem. Tem de lhe dar liberdade de consciência, mas também tem de procurar fazer valer os direitos sociais do homem”.

Ninguém pode negar ao Cardeal, hoje Bento XVI, riquíssima cultura teológica. Homem de reflexão, de longo magistério, autor de vários livros, desde jovem procurou contato com Congar, Karl Rahner, Karl Barth, grandes mestres da ciência teológica. E do trono pontifício ensina-nos agora o que Deus quer de nós: que “nos tornemos pessoas que amam, porque somos imagens dele e porque Ele é amor”.

* Membro da Academia de Letras do TriânguloMineiro

 

 








 

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