Sagrada Família
   
 

 


O mundo do novo Papa

por Dom Odilo Pedro Scherer

Bispo Auxiliar de São Paulo

Secretário Geral da CNBB

O primeiro papa eleito no 3º milênio cristão será o pastor de mais de um bilhão de católicos; e o resto da humanidade espera que ele seja o pai comum e a referência para todas as causas boas e justas. Após a morte de João Paulo II, impressionou ouvir de autoridades públicas, dos homens da cultura, dos representantes de Igrejas e religiões o desejo que o novo papa continue a estimular o diálogo entre todos e a convivência solidária entre os membros da grande família humana.

A globalização da solidariedade, tanto pedida por João Paulo II, precisa ser agora aprofundada e traduzida sempre mais nas estruturas sociais, nas políticas públicas e nas relações internacionais. A paz entre os povos será assegurada somente quando houver verdadeira justiça nas organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio, as instituições financeiras e os mecanismos econômicos. Os pobres do mundo precisam ser acolhidos à mesa do bem comum.

As grandes questões da ordem mundial estão a merecer uma nova palavra do Magistério Social da Igreja. Aqueles que não contam nas reuniões dos grandes da Terra esperam que a Igreja seja sua advogada.

O próximo papa vai ter diante de si as questões éticas novas levantadas pelo progresso científico e pelas novas tecnologias. Não sendo contra o progresso da ciência, a voz da Igreja, no entanto, não poderá deixar de se fazer ouvir na defesa da pessoa humana, de sua inalienável dignidade e do respeito pleno à sua vida.

Outra questão da maior relevância para a missão da Igreja é o diálogo com as culturas e a inculturação da fé. Os novos recursos da comunicação e os horizontes desconfinados abertos pela informática estão forjando um novo tipo de cultura e de relações entre pessoas e povos. Além disso, no mundo globalizado, muitas vezes caracterizado pela exacerbação da subjetividade e da individualidade, as referências comunitárias da cultura e das relações humanas são cada vez mais relativizadas. A Igreja precisa permear a nova cultura com o fermento do Evangelho

Não há dúvida que a revolução sexual das últimas décadas mudou comportamentos, redimensionou as relações sociais e colocou em crise a instituição familiar. Por sua vez, a ascensão social, cultural, econômica e política da mulher é um fenômeno da maior relevância para a sociedade e para a Igreja. A metade feminina da humanidade foi, tradicionalmente, a reserva moral e espiritual da Igreja e a sua parte mais generosa. Esta constatação não pode ser subestimada na maneira como a Igreja se posiciona em relação à nova situação da mulher na sociedade.

Há também o desafio missionário, que João Paulo II já colocou em evidência com tanta ênfase. Na Europa, cansada de racionalismo e materialismo, trata-se de reavivar a fé. Na América Latina, tão religiosa, mas exposta aos ventos fundamentalistas e aos grupos sectários é preciso aprofundar as raízes cristãs católicas. Trata-se também de fazer uma decidida opção pela África, continente esquecido e abandonado à sua sorte, depois de sido explorado por séculos. Trata-se, enfim, de olhar, com o coração de Cristo missionário, para a grande Ásia das culturas e religiões milenares, onde vive mais da metade da população mundial; lá o cristianismo ainda está pouco presente, mas é lá que se jogará o futuro estratégico da humanidade!

O novo papa, enfim, estará diante do desafio de continuar a estimular o diálogo entre todas as religiões, ajudando-as a perceberem melhor seu papel em relação ao bem da humanidade e à glória do Deus vivo; de persistir pacientemente no caminho do ecumenismo e da superação das divisões entre os cristãos para que, todos juntos, dêem um testemunho mais crível do Evangelho; mais que nunca, a união dos cristãos é importante para a realização da missão comum recebida de Cristo.

É tempo de conclave. É hora de rezar intensamente para que o Espírito Santo oriente a escolha do novo papa e ilumine aquele que for escolhido. Que a Igreja inteira se deixe contagiar por aquele que vem em nome do Senhor para confortá-la e para confirmar sua fé.








 

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