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O Culto ao Coração de Jesus
Sabe-se que o culto ao Coração de Jesus
é uma das devoções mais conhecidas
pelo nosso povo, das mais profundamente arraigadas
e praticadas, haja visto o grande número de
associações e congregações,
dedicadas ou conexas com o Coração de
Cristo. Baste citar, como exemplo, o Apostolado da
Oração.
É
bastante longa e bela a evolução histórica
do culto ao Coração de Cristo. Origina-se
do Antigo Testamento, que coloca o coração
como sede da nossa sabedoria, dos afetos e sentimentos,
até mesmo como elemento unitivo de todas as
manifestações humanas espirituais e
intelectuais. Este conceito, de sólidas raízes,
deveria ser objeto de reflexões antropológicas
e psicológicas. É preciso retê-lo,
para se poder entender melhor a profundidade do culto
ao Coração de Jesus.
Em o Novo Testamento, o coração aparece
como o centro do conhecimento e da doutrina de Jesus,
contrária e oposta à doutrina |
rígida e sem caridade que os fariseus, e muitos doutores
da lei e escribas, ensinavam. Assim, em Mt 11,25-28, no chamado
“Hino de Júbilo”, Jesus agradece ao Pai
por ter revelado seu mistério aos pequeninos e humildes.
Ele veio para que se tomasse conhecimento, através
de seu Coração, bem próximo ao povo,
do mistério de Deus: “Aprendei de mim, porque
sou manso e humilde de coração, e encontrareis
descanso para vossas almas” (Mt 11,29-30). Portanto,
Jesus, assim definindo o seu próprio Coração,
nos aponta as disposições evangélicas
da mansidão, da humildade, da pequenez, do espírito
de serviço. Isto fez com que muitos dos ouvintes se
achegassem a Ele mais estreitamente, encontrando uma fonte
permanente de paz para sanar as angústias da vida e,
ao mesmo tempo, um modelo a imitar em todos os momentos.
O
Evangelho de João relata o evento decisivo, para o
qual toda a história de Jesus se encaminha, e que é
chamado a sua “Hora”. Quando já tinha entregue
“o seu espírito” ao Pai (cf. Jo 19,30),
tendo sofrido a morte em sua natureza humana, diz o Evangelho:
“Vieram, então, os soldados e quebraram as pernas
do primeiro e depois do outro, que fora crucificado com ele.
Chegando a Jesus e vendo-O já morto, não lhe
quebraram as pernas, mas um dos soldados traspassou-lhe o
lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água”
(Jo 19,32-34). Este símbolo do coração
aberto indica o termo final da obra redentora de Cristo, ofertada
a quem dela quiser se apropriar pela fé. Como já
profetizara Isaías: “Com alegria tirareis água
das fontes da salvação” (Is 12,3).
Ensinam
os Santos Padres que, dali, nasceram a Igreja, os Sacramentos,
enfim, a nova realidade da Redenção. O evangelista,
citando o profeta, nos diz: “Olharão para Aquele
que traspassaram” ( Jo 19,37 e Zc 12,10). Sim, temos
que olhar. Pois só vamos entender Jesus, quando o olharmos
todo machucado, estraçalhado e traspassado, depois
de ter dado tudo, dá ainda a integridade do seu próprio
Coração físico. A natureza humana desfalecera,
mas a Pessoa divina continuava agindo!
Essa
contemplação consciente do Coração
de Cristo, traspassado, remonta à Idade Média,
com a ida dos Cruzados e através das diversas outras
peregrinações à Terra Santa, quando entraram
em contato com a realidade da vida humana de Jesus. Então,
começaram a se concentrar muito na sua Paixão,
com todas aquelas terríveis machucaduras: pela flagelação,
a coroação de espinhos, as chicotadas e quedas
debaixo da cruz e, mais que tudo isso, suas mãos e
pés perfurados pelos lancinantes pregos. Surge, assim,
a devoção às Santas Chagas do Senhor.
Dentre elas, discriminaram o maior significado na chaga central,
que resumia todo o Seu sofrimento, chegando ao Coração
de Cristo, onde se detiveram: “Olharam para O Traspassado”
(cf. Jo 19,37).
Segue-se
a fase dos Santos Padres, dos grandes místicos, Doutores
da Sagrada Escritura, que descobriram, concentrada nessa chaga
do Coração, a síntese de tudo o que Jesus
sofrera e ensinara. Reconheceram, que todos os benefícios
da Redenção vieram desse Coração
aberto. Assim, desenvolve-se a teologia, a mística
e a espiritualidade do Coração de Cristo. A
riqueza de Sua interioridade, enquanto Pessoa que ama, que
se dá, que chama a si, estava sintetizada, assinalada,
porque a chaga, mesmo depois que Jesus ressuscitara, continuou
ali, manifestamente fascinante. Então, a interioridade
de Jesus começou a ser analisada a partir dessa chaga,
momento final de sua história terrena, enquanto obra
de salvação, com o desfecho da Ressurreição
e da vinda do Espírito Santo.
Um
número cada vez maior de santos e santas foi aderindo
a essa espiritualidade. Nos tempos mais recentes temos Santa
Margarida Maria, Santa Gertrudes, Santa Matilde, o Beato Colombière,
e tantos outros. A Escola dos jesuítas, a Escola do
Cardeal De Berozze, muito conhecida na França, fizeram
com que a devoção ao Coração de
Jesus fosse quase que central, dentre as devoções
que havia em torno da Pessoa de Jesus e do Seu Mistério.
Dizia-se: “No Coração, ali assinalado,
nós hoje encontramos um símbolo efetivo da Redenção
toda”. Por isso mesmo, começa-se a dizer que
o Coração, assim machucado, nos mostra todo
o seu amor. Mas o amor de Cristo não se apresenta só
“machucado” pela ingratidão dos homens;
lá está manifesto o amor que o Pai e o Espírito
Santo têm por nós. A história humana desse
amor teve o seu ponto culminante na abertura do seu Coração
traspassado - doação plena e final, resumo feliz
de sua vida terrena.
Quando
dizemos que nosso coração pertence a alguém,
isto pode significar muito. Mas se nosso coração
estivesse aberto, machucado por amor de outro, seria sinal
de um amor bem maior. É o que Jesus nos oferece em
seu Coração, convidando-nos a nos achegarmos
a Ele: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob
o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso“ (Mt 11,28).
Evidentemente,
para chegar ao Coração de Cristo, isto é,
a seu amoroso mistério interior, é preciso percorrer
o caminho da assimilação a Ele e de suas qualidades
e exemplos. E, quanto mais os nossos corações
se tornarem semelhantes ao dEle, tanto mais nós conseguiremos
haurir desta fonte extraordinária do seu amor a força
para termos um coração novo, um coração
humano, sensível, que ama, que se doa e que sabe a
razão de suas atitudes perante todos os demais (cf.
Ez 11,19).
Além
de manifestar o que Cristo é, Pessoa que se fez homem
como nós, seu Coração nos revela o próprio
mistério do amor do Pai e do Espírito Santo.
Este amor do Espírito Santo, nós o conhecemos
quando ilumina e acalenta. Seu agir, desdobrando-se em obras
de salvação, contemplamos no Cristo, como espelho
que reflete a eterna comunhão trinitária. Todo
o amor que a Trindade tem por nós é comprovado
nesse gesto, “louco” para os limitados critérios
humanos, mas simbolismo efetivo para os que têm fé.
O
Coração que se abre denota o segredo, amplamente
revelado para os que se achegam. E é preciso achegar-se
a esse Coração, ao mistério interior
da Pessoa de Cristo que ama, para que nosso coração,
muitas vezes frio, descrente, como que de pedra (cf. Ez 11,19),
possa tornar-se um coração sensível,
cristão, cristificado, semelhante ao Coração
dEle. É preciso contemplar esse Coração
traspassado para encontrar o meio de chegar ao “coração
novo” do “homem novo”: transformado.
Cardeal D. Eusébio Oscar Scheid
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
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